Sucateamento oficial do metrô de São Paulo

Posted on 22/03/2011

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Da Folha de São Paulo, dia 22 de março de 2011:

Trens “velhos” voltarão ao metrô de São Paulo de cara nova

DE SÃO PAULO

A partir do mês que vem, os passageiros da superlotada linha 3-vermelha vão conviver com uma situação inédita no metrô de São Paulo. Eles serão transportados em trens com quase três décadas de uso e, ao mesmo tempo, praticamente novos –com ar-condicionado, câmeras de vigilância e novo layout dentro dos vagões.

De acordo com reportagem de Alencar Izidoro publicada na edição desta terça-feira daFolha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL), até a última semana de abril, devem começar a operar as duas primeiras composições modernizadas da história do metrô.

Dentro dos vagões, serão iguais aos 33 novos trens recém-comprados pelo metrô, com menos bancos e possibilidade de mais gente em pé. O custo próximo de R$ 1,8 bilhão para repaginar e equipar os trens, de acordo com a estatal, equivale de 60% a 70% do valor para a aquisição de composições novas.

Editoria de Arte/Folhapress

Há pelo menos duas piadas prontas aí, eu não preciso forçar o humor desta vez. Qual vocês acham melhor, o anúncio publicitário de “trens com quase três décadas de uso e, ao mesmo tempo, praticamente novos” ou que ainda estão para entrar em operação “as duas primeiras composições modernizadas da história do metrô“?

Poderíamos notar também que a linha de metrô mais saturada, da mancha demográfica mais populosa do país, recebe trens recauchutados enquanto as linhas que cortam áreas nobres da cidade de São Paulo têm trens novos de verdade. Ou que em pleno século XXI, passada já uma década de seu início, ainda seja possível ver numa cidade global como São Paulo meios de transporte simplesmente fundamentais para a população e que, apesar de transportarem milhões diária e apertadamente, não contam nem com ar condicionado. Isso para não mencionar a peculiar matemática da operação: a reforma dos trens custou entre 60 e 70% o preço da aquisição de trens novos. Por essa diferença de preço, não valeria a pena comprar trens novos de uma vez? O trem foi reformado, e não comprado, ou seja, há nele material de três décadas, não? E no caso da linha vermelha, esse material sofreu trinta anos de forte estresse. Por que diabos então pagar quase que o preço de um trem novo para tê-lo bonitinho na aparência, mas já fatigado em sua estrutura?

Poderíamos notar tudo, mas em homenagem ao meu bom humor de hoje, vou fazer uma concessão aos otimistas e concluir que esse raciocínio é pura pegação de pé… afinal, trem reformado é melhor que trem esculhambado, que por sua vez é melhor que nada, certo? Vai ver também é só uma coincidência que as linhas que cortam regiões mais periféricas e pobres da capital paulista e que transportam mais subempregados sejam justamente as eleitas para terem trens repaginados, e não novos. E por que não presumir que os trens novos colocados por publicidade eleitoral ano passado permaneçam circulando lá? Tem mais: se foi decidido que os trens podem continuar operando mesmo tendo trinta anos, então isso só pode ter sido decidido por um corpo profissional competente, baseado em diagnósticos estritamente técnicos. Como aquele que projetou e está construindo a linha 4 – amarela com um trecho que passa embaixo do rio Pinheiros. Eu não vou contestar essa decisão, afinal, não tenho diploma de engenharia.

Para qualquer buraco que apareça nessa teoria, é óbvio que não é “culpa da tecnologia”, e sim do seu mau uso. Todos sabemos que cuspe não cola muito bem viga de concreto nem sustenta direito uma estação subterrânea e subaquática de metrô como a de Pinheiros. Mas é que o cuspe é muito vantajoso para o governo, pois é material barato e indeclarável. A tecnologia não tem nada a ver com isso.

Em resumo, vamos supor que o metrô não é elitista, o negócio da reforma foi bom e o trem velho é até melhor que um trem novo, porque tem a mesma qualidade e durabilidade e é mais barato.

Mesmo fazendo todas essas concessões, como fugir do problema quando analisamos o custo?

1,8 bilhões de reais. É grana, não? Na verdade, é menos que o dinheiro público usado no projeto inteiro da linha 4 – amarela e suas 11 estações supermodernosas. Na verdade, cerca de metade da grana.

É isso aí. Ao invés de desafogar a linha 3 – vermelha com a construção de outras linhas de apoio, cuja carência é severa, o Governo de São Paulo prefere gastar mais para tirar bancos das composições. Não, não… seus engenheiros não estudaram em escola pública estadual com progressão continuada. É que há de se respeitar um profundo senso de harmonia: essa linha transporta muitas pessoas que trabalham como gado, logo, é natural que essas mesmas pessoas devam ser carregadas como tal. “Carregadas” é a palavra correta, pois no caso, trata-se de cargas, mesmo. Mercadorias com força de trabalho, não pessoas. Pessoas andam de carro, cidadãos de helicóptero. Assim, não há que se proporcionar diversas rotas de transporte e conforto nos trens para que menos pessoas precisem viajar em pé. Trata-se de diminuir os lugares sentados para que mais carga possa ser empilhada. Notem que há aí uma fina logística, um exímio cálculo de eficiência desse governo-gerente-empresário. Faz até com que minha humildade se vá e eu creia estar muitos níveis acima das mercadorias chinesas empilhadas de qualquer jeito em navios gelados, sujos e cheios de ratos.

Esse tratamento diferencial é mérito de um governo diligente e paciente, que como formiguinha, vai já há 16 anos minando aos pouquinhos qualquer coisa que já tivemos de sólida no Estado e na cidade de São Paulo. Provavelmente com outro governo teria sido de outra forma, mas o que temos de realidade é este PSDB de agora, e de antes, e também de depois. Pois é natural que, com esse tratamento, a população paulista vote reiteradamente no partido. Natural também que sua massa votante e bovina receba presentinhos como esses.

Tudo isso que digo parece dar a impressão de que sinto revolta contra São Paulo. Bem, estão certos. Mas ao mesmo tempo, fico contente. Afinal, esse lugar é um excelente exemplo para demonstrar a tese que defendo aqui. Se alguém estiver na estação Tatuapé às 7h30 da manhã de um dia de semana comum e não conseguir pensar nem por um instante que este mundo é uma grande porcaria, por favor, deixe contato nos comentários ou me mande e-mail direto: você deve ser um buda, e talvez saiba me dizer como transcender desta grande porcaria para o Nirvana (e aí sim este blog servirá para alguma coisa útil de verdade).

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