A sujeira de Higienópolis

Posted on 13/05/2011

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"Eu já falei pra deixar o povão pra lá!"

Hahaha, é muito engraçado notar a emporcalhação deste mundo em um lugar chamado Higienópolis! Ironia das ironias, mas nos divertimos às custas de nós mesmos. Pelo menos ainda dá para se divertir de vez em quando.

Observem: o Metrô de São Paulo é elitista não é de hoje. Todos os “projetos de expansão” contemplavam, inicialmente, apenas a área mais ou menos equivalente ao centro expandido da cidade de São Paulo. Mas mesmo com a “debugada” do projeto, que inclui uma esticadinha até Brasilândia, o metrô ainda não atende, mas nem de longe, a necessidade da população paulistana, obrigada a todos os dias se deslocar para muito longe graças ao imenso desequilíbrio econômico que centraliza empregos e periferiza trabalhadores.

Assim, a linha 3, a mais cheia do mundo na relação passageiros/km vai ficando pra lá, sem desafogo, sem investimento, enquanto linhas chiques, como a 2, que é a da Av. Paulista e a 4, que desce a Rebouças, vão lá recebendo trens novos, expansão, reforma, propaganda no horário político e o escambau. Isso para não mencionar os trens da CPTM, que parecem não transportar trabalhadores, mas refugiados de guerra.

Contudo, nessa de desenvolver a civilização somente nos bairros de IDH maior que 0,9, o elitismo do metrô deu um tiro no próprio pé! Ele não se tocou que a velharada de Higienópolis NÃO queria metrô lá, porque, afinal de contas, estação de metrô é point de maconheiro, camelô, drogados, uma gente “diferenciada”. Crème de la crème, sacam? O metrô dá preferência a bairros chiques, mas os überchiques não precisam disso, não querem isso; a nobreza de verdade não se mistura com a plebe, e usa seu carro importado anualmente trocado para fazer o que seus empregados são incapazes de conseguir. Até antes do anúncio do projeto da linha 6 – Laranja, os vizinhos camaradas do FHC compartilhavam do mesmo sentimento de quem mora nos Jardins e em Moema, o sentimento de que “este quinhão de área privilegiada não é um bairro urbano, mas sim um condomínio privado”. A versão moderna da Casa Grande; para eles, metrô é a nova mula da Senzala – mas só no Brasil, que teve escravidão até bem tarde (por causa de quem, mesmo?). Em Paris e Nova York, o metrô na esquina de casa é atributo de Primeiro Mundo, assim mesmo em maiúsculas. O metrô até cerca Higienópolis, mas não ousa adentrar ali; é como se houvesse muros de um castelo medieval a proteger uma aristocracia com medo da peste negra que assola lá fora. E na cabeça deles, o trocadilho serve bem.

Isso não poderia ficar assim, certo? Eis que o presidente do clube de cróquete de lá arranjou 3500 assinaturas CONTRA a estação da Av. Angélica. Foi um recado ao Governo Estadual, assim: “3500 votos não elegem ninguém, mas não se esqueça pra quem vocês governam”. Ato contínuo; o metrô resolveu levar a estação uns 600 metros mais pra lá dizendo que era uma “decisão técnica”. E assim, de acordo com Pedro Ivanow, presidente e representante dos quatrocentões, “prevaleceu o bom senso”.

Bem, mas quem vai ter agora que explicar esse bom senso e essa decisão técnica para o Ministério Público é o Metrô e o Governo de São Paulo, e não o sensato, mas vitimado Sr. Ivanow.

Não se iludam, isso é só marketing. Não vai acontecer nada.

Mas a porcaria não acaba por aí; em uma cidade que não chega a 71 quilômetros de linha e 61 estações para uma área de 1500 quilômetros quadrados e 11 milhões de habitantes. Gosto da comparação com Santiago, no Chile, que começou a fazer metrô na mesma época que a Pauliceia, e hoje conta com 103 quilômetros de linha e 108 estações (e subindo…). A diferença é que Santiago tem menos da metade da área de São Paulo (641,4 km2) e quase a metade de nossa população (entre 5 e 6 milhões de habitantes). Mas nós temos mais de um carro para cada dois habitantes, enquanto eles tem pouco mais de um carro para cada dez. O clubismo de Higienópolis ajuda a explicar.

Sendo assim, ora, porque diabos colocar metrô onde não precisa? Para calar a dentadura das viúvas do século XIX? Seria legal, muito legal, mesmo que provavelmente só seus bisnetos tivessem a oportunidade de ver a estação concluída. Mas seria uma derrota política gostosa de ver esses 3500 engolindo, hahaha. Bem, mas o fato é que o resultado da birra seria mais uma estação de metrô em área bem servida delas, a quarta ou quinta na região. Uma vitória pírrica? Não…  isso ainda seria muito a perder. Seria o gostinho de uma trapaça pueril somente, até porque não é recuando na decisão que o Governo Paulista mostrará que governa para todos. Não; põe mais essa na conta da porcaria. O que tinha mesmo que acontecer não vai acontecer: o traçado da linha não vai mudar nem mais linhas serão propostas dentro desta década ou mesmo nas próximas, e a cidade continuará segregada e segregadora, porque pelo visto o PSDB dominou geral o feudo de Piratininga e as duas margens do Tietê e vai governar enquanto houver tucanos no ninho.

O que resta então é o Churrascão da gente diferenciada. Protesto bacana. Mas é uma porcaria saber que isso é tudo que conseguimos com política. Bem, que seja: ainda é melhor que nada. Como já dizia alguém; já que estamos no inferno, vamos aloprar o capeta. Pelo menos num plano simbólico, vamos resolver nossas diferenças com essa gente indiferente. Deve ser bem engraçado, quase tanto quanto a luta de classes no gel… mas parece que tanto um quanto o outro vão miar. Este mundo é uma porcaria inveterada.

"O que eu não engulo para ganhar voto..."

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Posted in: Pegadinha